Hoje, 22 de Março, é o Dia Mundial da Água, por isso o Blog da Criança traz para vocês uma linda história da Sehiarpo Associação, que faz parte do nosso projeto «Ensinando uma Criança a Viver».

Espero que nossos amiguinhos gostem e que lembrem-se sempre do quão preciosa é a  água para a sobrevivência de todos os seres do planeta Terra e o quão é importante economiza-la.

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A água potável é a gota da vida

Acordo com o ruído que a minha mãe faz todas as manhãs quando se prepara para ir buscar água. Juntamente com outras mulheres da aldeia, elas vão a um poço ao lado dum rio seco, que elas construíram, escavando com as suas próprias mãos. O poço está a 12km da nossa casa, claro que é muita distância, sobretudo quando volta com vários cubos de água, caminhando descalça, pelo terreno árido, em dias de muito calor e também de chuva e frio. Às vezes, eu ou algum dos meus irmãos acompanhamo-la, para podermos trazer mais água, mas quase sempre vai ela com outras mulheres, porque nós temos muitas feridas nos pés, por andarmos descalços em lugares que nos magoam muito. Por isso, mamã prefere que a gente não vá com ela, porque os nossos pés podem infetar-se e adoeceríamos.

Esperamo-la sempre com entusiamo e ansiedade ao mesmo tempo, porque acordamos com muita sede e a maioria das vezes não temos água armazenada em casa. Vivemos numa localidade da Tanzânia, e ao contrário de vós, nas nossas casas não há água para podermos tomar banho, lavar as mãos, lavar os dentes e beber. Seria tão especial poder beber duma fonte, dum riacho ou de qualquer outro lugar, sem ter que caminhar horas e horas. A maioria das vezes a água que encontramos não é potável, por isso não se bebe. Quando mamã chega, ferve a água para eliminar as bactérias e para que possamos bebê-la sempre que tenhamos sede, sem que a água nos prejudique.

Somos seis em casa, pelo que é necessário que dosifiquemos a água, porque toda a que mamã traz, não é suficiente para beber, para as tarefas da casa e para a nossa higiene pessoal. Tentamos que a maioria da água seja para beber e para cozinhar, porque senão morreremos desidratados ou de fome. Mamã e minhas irmãs utilizam essa água para fazer comida. A água que ela reserva para a nossa higiene pessoal é pouca, por isso, não podemos tomar banho todos os dias. Um dia tomam banho as minhas irmãs, todas juntas, para aproveitar melhor a água que mamã aquece e prepara para o momento do banho, e no dia seguinte, tomam banho os rapazes, também juntos, é preciso poupar! Para a minha família é essencial fazer um controlo rigoroso da água, porque cada gota é de vital importância…nos sacia a sede, lava-nos as mãos, refresca-nos…tantas coisas que outras crianças não apreciam.

A água que utilizamos para lavar as roupas ou coisas para cozinhar, temos de a reutilizar várias vezes para o mesmo efeito. Porque entendemos que para a mamã é muito difícil ir todos os dias buscar água tão longe. Sabeis, a água nos cubos pesa muito, e as mulheres trazem-na para casa aos ombros ou sobre a cabeça, por isso a ajudamos, tentando não desperdiçar nem uma só gota de água. Para além do mais, mamã e as outras mulheres, nem sempre vão ao mesmo lugar, porque com a seca provocada pelas alterações climáticas e pela contaminação, deixa de haver água no poço e elas têm que caminhar para encontrar outro lugar onde possam criar um novo poço para essa etapa.

Regressam muito cansadas a casa, mas com um sorriso e satisfação de terem trazido água para sobreviver. Elas são as nossas heroínas, e as mulheres na minha aldeia, à medida que crescem, ajudam na tarefa da água.

Duas vezes por semana, médicos e voluntários duma organização visitam-nos. Eles ajudam-nos e trazem água, alimentos, medicamentos e fazem-nos revisões para se assegurarem que a nossa saúde não está a sofrer as consequências de falta de água, higiene e alimentos. Uma das médicas disse às mulheres da aldeia que são muito valentes e fortes. Às crianças, dizem-nos que têm muito orgulho em nós e que gostam de nos ver a sorrir, porque disfrutamos e apreciamos tudo o que temos, mesmo sendo pouco e somos uma grande família, porque todas as pessoas da aldeia cooperam para estarmos todos bem. Apesar de que me surpreendeu muito o que me contaram sobre crianças de outros países como o vosso. Dizem que tendes água corrente e quente nas vossas casas! Isso seria um sonho tornado realidade para nós! Mas chateia-me saber que a desperdiceis e a sujeis. Não sabeis o difícil que é viver sem água em nossas casas, ou nem sequer ter água corrente potável para beber sempre que temos sede. A vida seria muito mais fácil se tivéssemos mais e melhores acessos à água. Vocês só têm que abrir uma torneira ou ir a uma fonte ou manancial próximo ou inclusive ir a um supermercado, em que não caminhais mais de 5 ou 10 minutos para lá chegar. Em contrapartida, nós na Tanzânia temos que andar horas para chegar a um ponto de água e a maioria das vezes não é potável. É imprescindível fervê-la para bebê-la.

Sabeis crianças, a água é um presente do planeta, de que necessitamos tanto como o ar que respiramos, o sol que nos aquece e o amor que nos enche o coração, por isso, deveis cuidar dela, com consciência de que existimos nós, outras crianças noutras zonas do planeta, que não temos acesso à água potável e necessitamos dela tal como vós. A água é vida, e a vida para nós seria muito mais fácil e com melhor qualidade, se tivéssemos água. Aproveitamos e saboreamos cada gota de água que cai sobre as nossas línguas, mesmo sendo da chuva.

– Associação Sehiarpo

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