O Blog da Criança traz para vocês, mais uma linda história educativa de autoria de Yolanda Castillo,  para o nosso projeto “Ensinando uma criança a viver” realizado em parceria com a Sehiarpo Associação.

Hoje os nossos leitores, meninos e meninas vão conhecer a história de Mara e Lina, duas meninas que foram abandonadas pelos pais. Espero que gostem e pensem na sorte que vocês têm em ter uma família que vos ama. 🙂

Ensinando-uma-Crianca-Viver-abandono-infantil

Mara e Lina, abandonadas na noite
Tema: Abandono Infantil

Não vos vamos contar onde vivemos porque não é o mais importante…pois a nossa história vivem-na muitas crianças de todas as partes do mundo e muitas vezes em silêncio, sem que ninguém o saiba. Somos as irmãs Matí, chamamo-nos Lina e Mara, temos 11 e 15 anos. Os nossos pais abandonaram-nos quando éramos pequenas. Lina tinha apenas um ano no momento que tudo aconteceu. Não se lembra do pai nem da mãe. Eu apenas me recordo do cabelo encaracolado de mamã e dos risos de meu pai. Agora só temos dois colares com uma foto deles. Abandonaram-nos na porta duma casa de refugiados, numa noite fria do mês de Dezembro. Eu levava na minha mão uma bolsa de tela com estes colares com os nossos nomes e datas de nascimento e também uma carta dos nossos pais, despedindo-se de nós e explicando que nos abandonavam porque já não sabiam como cuidar de nós, alimentar-nos nem como ser nossos pais. Esta carta temo-la colocada no quarto porque é a única recordação que temos deles.

Lina não se recorda de nada da nossa antiga vida, de nossos pais ou dos primeiros anos que vivemos aqui, mas eu sim. A noite em que nos abandonaram era muito fria e escura. Tive medo e chorei, pedindo ao céu que se fizesse dia para que alguém nos ajudasse, não sabia o que se passava. Os meus pais apenas me disseram que ficasse ali e cuidasse de Lina. Não me lembro quanto tempo passou, mas Lina começou a chorar muito, não sabia o que se passava, tinha medo. De seguida acenderam-se luzes dentro da casa e a Senhora Doroti saiu para abrir a porta e encontrou-nos. Perguntou-me o que fazíamos ali, onde estavam os nossos pais, a nossa roupa de abrigo…eu tive tanto medo que não soube o que responder. Só guardei silêncio. Ela e a Senhora Mia, levaram-nos para dentro da casa e todos acordaram com os gritos de Lina. Isso é do que mais me lembro dessa noite…dos seus berros e do meu medo. Essa noite foi tão dolorosa para mim que não recordo de nada antes dessa noite.

A Senhora Mia pediu mantas a todas as pessoas, porque estávamos congeladas e pensavam que o frio era um dos motivos pelo qual Lina chorava. A Senhora Doroti pediu a outras mulheres para preparar banhos quentes e leite que nos fizesse entrar o calor. Estavam preocupadas com os berros de Lina e se a polícia aparecesse. Eu disse em voz alta:

– Não comemos nada desde ontem, desde quando apareceu o sol.

Rapidamente a Senhora Mia preparou leite de cabra numa cafeteira e quando estava quente, começou a dá-lo à Lina, com pequenas colheradas e ela deixou de chorar e adormeceu.

Era de noite, pelo que depois de lhes dizer os nossos nomes, a Senhora Doroti disse-me que nos levaria a descansar e que pela manhã falaríamos. Nunca tinha dormido numa cama, nem bebido um leite tão saboroso, mas mesmo assim adormeci com lágrimas nos olhos. Porque os nossos pais nos tinham deixado em casa de desconhecidos? Eles eram bons connosco, mas, porquê?

Não me queria separar de Lina, tinha medo que lhe fizessem mal. Na manhã seguinte as senhoras Mia e Doroti, explicaram-me o que tinha acontecido e falaram-me da carta que eles nos deixaram. Nunca mais voltaríamos a ver os nossos pais. Abandonaram-nos porque são pobres, porque não tinham como nos alimentar e porque já não sabiam como cuidar de nós e ser bons pais. A minha mãe não aguentava os choros de Lina, nem os meus medos. Esta é uma casa para os refugiados, as Senhoras Doroti e Mia têm uma casa grande e decidiram dar acolhimento às pessoas que viviam na rua ou às crianças que eram abandonados pelos seus pais, como Lina e eu. Na noite seguinte, dormimos num quarto com crianças e jovens como nós. Conheci a Roi, que também tinha um irmão pequeno. O seu pai os abandonou porque tinha morrido. Susana deixaram-na na porta da casa aos poucos dias de ter nascido, ninguém sabia que a sua mãe estava grávida…e assim conheci outras crianças que foram de igual modo abandonadas. Isso não aliviou a minha dor. Lina estava-se a adaptar bem, mas eu não conseguia sorrir.

Passou o tempo e pouco a pouco me adaptei. Esta é a minha casa e ganhei muitos irmãos e uma enorme família. Temos duas mães, a Senhora Doroti e a Senhora Mia. Elas dão-nos muito amor e tentam fazer com que nos sintamos em casa e que não nos falte nada, quase que me esqueci da cor do cabelo da minha mãe e dos seus risos…mas há algo que deixou uma marca muito grande no meu coração: sou uma menina abandonada.

Lina, Roi, Susana, as outras crianças da casa e eu, tivemos sorte, porque apesar de sermos crianças abandonadas, os nossos pais nos deixaram às portas duma casa de refúgio. Mas há outras crianças, adolescentes e inclusive bebés, que são abandonados na rua ou em qualquer outro sítio, que estão sós e se sentem perdidas e aterrorizadas; algumas inclusive morrem de fome ou de frio na rua. Somos crianças abandonadas mas com a sorte de termos sido acolhidas por mulheres que nos dão todo o seu amor.

Valorizai sempre o vosso lar, os vossos pais e as pessoas que vos amam, porque nem todas as crianças têm a sorte de estar com a sua família.

Vossas amigas do coração.
Mara e Lina – crianças abandonadas.

Sehiarpo Associação – Pelas crianças do Mundo
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