Entrevista com Miriam Porto

A Entrevista com Miriam Porto

Saúde Mental, Gestão Escolar e os Desafios do Regresso às Aulas

Com o recomeço da escola, a rotina escolar ganha um novo ritmo, trazendo desafios não apenas para os alunos, mas também para os educadores e para a gestão das escolas. Para entender como cuidar da saúde mental das crianças, gerir conflitos e humanizar o ambiente escolar, conversámos com Miriam Porto.

Nesta entrevista exclusiva para o Blog da Criança, a autora compartilha a sua trajetória, analisa os obstáculos da gestão pedagógica atual e dá conselhos valiosos para pais e educadores.

Breve Caracterização da Autora

Mestre em História e Pedagoga especializada em Gestão Escolar e Psicologia Educacional, com grande experiência tanto em sala de aula, como professora da educação básica e do ensino superior.  

Atuo há mais de 30 anos na gestão escolar como orientadora educacional, coordenadora pedagógica e diretora educacional.

Atualmente, tenho-me dedicado ao trabalho de Assessoria na área da Orientação Educacional, levando minha experiência, olhar sensível e soluções criativas para as escolas que se deparam com situações desafiadoras.

Trajetória Pessoal e Profissional

1. Com mais de 30 anos dedicados à educação, o que a inspirou a seguir este caminho e, mais tarde, a fundar a OE (Orienta e Educa)?

Minha trajetória na educação foi norteada pela possibilidade de contribuir para o crescimento do aluno por meio do conhecimento crítico. A fundação da OE (Orienta e Educa) criou um espaço de mediação intelectual voltado para o desenvolvimento dos profissionais da educação, através da inovação metodológica e da busca pela excelência acadêmica.

2. Como é que a sua formação em História, Pedagogia e Psicologia Educacional molda a sua forma de olhar para as crianças e para a gestão escolar hoje?

A formação em História me forneceu a percepção do aluno e da escola como sujeitos inseridos em contextos socioculturais em constante transformação, enquanto a Pedagogia me garantiu o rigor metodológico na mediação dos processos de ensino-aprendizagem.

A especialização em Psicologia Educacional facilitou minha atenção aos aspectos socioemocionais que atravessam o desenvolvimento do aluno. Na gestão escolar isso propiciou uma liderança humanizada, capaz de promover ambientes inclusivos, reflexivos e à formação crítica.

3. Ao longo de décadas de carreira, qual foi a maior transformação que presenciou na forma como as escolas lidam com as emoções dos alunos?

Uma grande transformação foi a transição de um modelo basicamente focado na disciplina punitiva para uma abordagem que reconhece a importância da saúde mental. A dimensão socioemocional passou a integrar a preocupação das escolas, ganhando urgência sobretudo no período pós-pandemia de COVID-19, momento em que a vulnerabilidade psíquica do aluno exigiu novas posturas de acolhimento.

Saúde Mental e Comportamento

4. Quais são os primeiros sinais silenciosos de que a saúde mental de uma criança ou adolescente está abalada pelo ritmo escolar?

A deterioração da saúde mental discente manifesta-se inicialmente por alterações sutis e no comportamento cotidiano. Destacam-se a queda no rendimento acadêmico, acompanhada por apatia ou perda de interesse em atividades.

5. Após a pandemia, houve um aumento nos casos de depressão infantil e juvenil. Como os pais podem diferenciar a preguiça ou o desinteresse comum da idade de um quadro de ansiedade ou depressão?

Após o isolamento imposto pela pandemia, crianças e adolescentes voltaram às aulas presenciais manifestando grande dificuldade de socialização, intolerância e intensa agressividade. Também notamos um aumento assustador em casos de depressão, crise de ansiedade nos ambientes escolares. Essas manifestações nada tem a ver com a preguiça ou desinteresse e as escolas perceberam isso.

6. O que fazer quando o filho relata que se sente sozinho ou “invisível” dentro da sala de aula?

A manifestação de sentimentos de isolamento e invisibilidade exige intervenção assertiva por parte da escola. O primeiro passo é a escuta ativa e acolhedora, validando sua experiência sem minimizar o impacto emocional relatado.

O serviço de Orientação Educacional deve estruturar práticas de mediação de conflitos e desenvolver estratégias socioemocionais voltadas para a empatia e a inclusão, assegurando que o aluno transite da invisibilidade para o reconhecimento legítimo no espaço escolar.

Relação Pais x Escola

7. Menciona que muitas escolas funcionam em “piloto automático”. Como é que os pais podem avaliar se a escola do filho oferece um suporte emocional real ou apenas um discurso comercial?

Infelizmente, muitos pais não se atentam para essa questão.  Mas os pais podem observar se a prática cotidiana legitima os discursos feitos na hora da matrícula.  Observar de existe seriedade em tratar as demandas apresentadas pelos alunos e uma comunicação clara e transparente com as famílias.

8. De que forma os pais podem abordar a coordenação pedagógica para relatar um problema emocional sem soar como uma interferência excessiva?

O diálogo respeitoso e assertivo é sempre o melhor caminho para estabelecer uma relação saudável entre família e escola.

Essa abordagem dialógica e transparente legitima a autoridade pedagógica da escola ao mesmo tempo em que assegura a escuta e o acolhimento das famílias.

9. Quando há um conflito recorrente entre alunos (como provocações ou exclusão), qual deve ser a postura imediata da gestão escolar e o que os pais devem exigir?

A ocorrência de conflitos recorrentes exige da gestão escolar uma intervenção imediata. O primeiro passo é interromper a hostilidade, garantindo a segurança física e psicológica dos envolvidos, seguida pela escuta ativa e individualizada das partes. A escola deve mediar e garantir a consciente, a empatia e a reconstrução dos vínculos.

Desempenho e Rotina

10. O segundo semestre costuma ser mais cansativo e marcado pela pressão das notas. Como é que a família pode ajudar a aliviar essa carga sem deixar os estudos de lado?

Uma grande dificuldade das escolas é conseguir que os pais acompanhem de perto a rotina escolar dos filhos. Esse acompanhamento garante uma organização que diminui o estresse e a não realização de atividades solicitadas. Outro ponto importante é garante um tempo de lazer e descanso.

11. Como lidar com alunos com dificuldades específicas de aprendizagem que acabam por ficar para trás por falta de adequação pedagógica?

A  superação das lacunas exigem intervenções pedagógicas planejadas após a avaliação pedagógica. É importante esclarecer que a escola tem o dever de realizar as adaptações, mas o que e o como adaptar são prerrogativas pedagógicas.

Mensagem Final

12. Se pudesse dar um único conselho aos pais que querem preparar os filhos emocionalmente para a vida e para o ambiente escolar hoje, qual seria?

O afeto e a escuta atenta são os pilares fundamentais na formação dos indivíduos. Eles oferecem a segurança necessária para que tenham a coragem de se aventurar na descoberta do mundo com confiança e equilíbrio emocional.

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