Dando seguimento ao projecto ENSINANDO UMA CRIANÇA A VIVER, que teve início em Junho de 2014, em parceria com Clube das Estrelinhas e o Blog da Criança , trazemos mais uma historia para os nossos pequeninos, que tem como tema crianças gagas. Abaixo vamos ler a linda história de João, o menino pianista!

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O sonho de um menino pianista
Tema: crianças gagas

Todas as noites, quando me deito para dormir e recarregar-me de energia para o dia seguinte, tenho um sonho muito bonito que se repete noite após noite. Estou num auditório muito grande, bonito, com um jogo de luzes quentes. No centro do palco há um piano novo com o meu nome gravado. De repente, ouvem-se aplausos e faz-se um enorme silêncio, esperando que o pianista comece a tocar e a cantar! Que surpresa! Esse pianista sou eu! Toco muito bem e a minha voz acompanhada pelo piano tem um timbre muito bonito. De repente escuto:

– João acorda, é hora de ir ao colégio, senão chegarás tarde – disse mamã. Abro os olhos e sinto-me triste…era só um sonho que parece que nunca será real.

Gosto muito de ir ao colégio, aprender coisas novas e sentir que ainda me faltam muitas coisas para conhecer, isso me mantem motivado. Em contrapartida, nem tudo me incentiva no colégio. Falo e participo pouco nas aulas, apenas me sinto cómodo mantendo conversas com o meu grupo de amigos de infância e com os professores, quando não há mais crianças junto.

Aqueles que estais a ler perguntarão porque não falo mais. Faço-o porque sou gago e tenho vergonha de falar em público, porque os outros meninos riem-se de mim, fazem pouco e acham que sou estranho. Isso faz-me sentir pequeno como uma formiguinha numa montanha.

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O melhor momento do dia é quando estou na academia de música. Ali aprendo a tocar piano e o necessário para ser um bom profissional de música. Na academia tudo gira à volta de um ambiente musical muito alegre, assim estou muito cómodo e por momentos esqueço do meu problema. Na academia, há muito poucos meninos que repararam no meu problema, porque aqui o único que importa é a música e treinar as capacidades musicais.

Há dois anos que toco piano e nele encontrei um refúgio e amigo ao mesmo tempo. Tocando piano, o meu mundo é perfeito, tudo se envolve com as suas melodias e não há espaço para me lembrar da gaguez. Sinto-me normal e ninguém me falta ao respeito por causa do meu problema.

Mamã sempre me diz que a gaguez desaparecerá quando me sinta seguro de mim mesmo e encontre algo que não me faça duvidar de mim e quando me sinta feliz por mim e não por aquilo que os outros me queiram fazer sentir.

Sei que mamã tem razão mas não consigo deixar de sentir vergonha perante os outros, por falar diferente. A avó diz que os campos de flores mais bonitos são os que estão formados por todo o tipo de flores diferentes. Apesar de serem diferentes, todas mantêm a sua essência e se sentem especiais; como eu também tinha de me sentir. Mas sempre que abro a boca para tentar falar, a gaguez recorda-me que está comigo e que não sou uma criança normal. Um dos motivos pelo qual adoro tocar piano, é porque não necessito de falar e através dele, consigo expressar tudo o que guardo no meu coração e a alegria que não consigo compartilhar com os meus companheiros.

Todas as manhãs conto à minha mãe o mesmo sonho. Ela sempre me diz que o que mais gosta é ver-me muito feliz, como nesses instantes do meu sonho. E cada manhã, mamã me pergunta qual é o sonho da minha vida, aquilo que mais desejo no mundo, e eu sempre respondo:

– Mamã, o meu sonho seria tocar piano e cantar ao mesmo tempo, sem gaguejar.

Foram estas palavras e o facto de comunicar cada vez menos com os outros, que fizeram com que a minha mãe me inscrevesse nas aulas de canto. Não só para me ajudar a melhorar os meus problemas, mas também para ajudar-me a ser mais feliz. A ideia assustou-me e emocionou-me ao mesmo tempo, porque as crianças poderiam rir-se de mim novamente e então também não me sentiria bem na academia. Depois de pensar uns segundos, aceitei a proposta de mamã, porque me faria muito feliz sentir-me seguro e expressar tudo o que sinto cantando.

As aulas começaram e apesar dos primeiros dias estar muito nervoso e ter dificuldade na matéria, senti-me cómodo e feliz porque as crianças não se riam de mim, nem sequer deram importância ao meu problema. Pouco a pouco, com a ajuda das aulas e o passar do tempo, fui compreendendo melhor tudo o que acontece na garganta, cordas, aparelho fónico e também o meu problema.

Com o passar dos meses, consegui controlar a minha gaguez e melhorar as relações com os outros, porque me sentia mais seguro.

Já passaram cinco anos desde que iniciei as aulas de canto e tudo na minha vida mudou. Sabeis uma coisa meninos, compreendi que o maior obstáculo perante os outros meninos, era eu mesmo, que me envergonhava e sentia tão mal com o meu problema, que temia que os outros também o fizessem. É certo, alguns meninos podem rir-se de nós, mas é porque não compreendem o quanto talentosos e especiais que somos. Encontrei uma forma muito divertida e profunda de expressar o que sinto e que os outros o captem. Somos especiais pelo que temos no nosso coração, sejamos gagos ou não, por isso, primeiro temos que aprender a aceitarmo-nos para que os outros também o façam e nunca desistir de nós mesmos nem de nossos sonhos.

Depois de todo este tempo, meninos, consegui cantar sem que a minha gaguez se notasse. Entre todos os meus projetos, um deles é dar aulas a outras crianças com problemas de voz, para ajudá-las a serem felizes como eu sou.

O clube das Estrelinhas
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